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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O coração do discípulo



Pensar sobre o coração não é tarefa fácil. Falo de coração como sinônimo de intelecto, de sede das emoções e de lugar de decisões. Falo mais de mente do que de sangue, mas de sangue também. Falo de discernimento mais do que de órgãos, mas disso também porque não há nada em nós que não faça parte do coração, por isso de sua complexidade. Já disse o cronista Luiz Fernando Veríssimo: “não se alcança o coração de ninguém com pressa”. E ele está certo. O coração não é enxergado rapidamente, precisa de tempo para conhecê-lo e o desbravar. Só quem tem compromisso conseguirá esperar para apreciar o coração de alguém. Quando o profeta Samuel, direcionado pelo céu, buscava um homem na casa de Jessé para ser o novo rei de Israel e diante das dúvidas sobre qual opção escolher, disse Deus a ele: “não atentes para a aparência, nem para altura ou para estatura, porque tenho rejeitado; porque o Senhor não vê como vê o homem. Pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o seu coração”. Do que Samuel precisava? De um administrador, economista, gestor, matemático? Todos os filhos de Jessé possuíam essas competências, pois auxiliavam diretamente o seu pai nas demandas da fazenda. Um a um dos filhos foram analisados, mas sem sucesso e foi preciso chamar o ausente da reunião que ainda pastoreava no pasto, Davi. Ele seria o novo rei de Israel. O ponto chave era que Samuel não deveria tentar suprir os seus objetivos que tem a ver com o que o olho ver, mas os objetivos de Deus que contempla o mais íntimos de cada pessoa. Depois de algum tempo, Deus diria: “achei a Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará toda a minha vontade”. Às vezes, procuramos mãos, mas o que devemos procurar são corações. Mãos não controlam o coração, mas o coração controla todo o corpo. Foi o que Deus ensinou naquele dia ao sacerdote Samuel. Certo dia, um homem foi assaltado e agredido. Lançado ao relento e distante de tudo e todos estava a lamentar suas dores e aflições. Um levita e um sacerdote, quando passavam pelo caminho, viram o homem esparramado no chão, mas passaram sem aparente comoção. Por fim, um samaritano viu a cena e se encheu de compaixão. Buscou o ferido, o levou para uma hospedaria e pagou todos os cuidados necessários para a sua recuperação. Qual a diferença entre o levita, o sacerdote e o samaritano nessa história? Simplesmente, o coração. As mãos do sacerdote e do levita não puderam ser usadas porque os seus corações não eram como o de Deus, mas o daquele samaritano, sim. E somente um coração como o de Deus pode mover todo o corpo para a vontade do Eterno. Os olhos podem ver, mas é com o coração que se sente. Os olhos podem me chamar à atenção para algo, mas é o coração que fará meus pés andarem em direção ao que precisa e fará minhas mãos agirem quando necessário. A melhor forma de governar é com o coração. A lei existe para inibir aquilo que é ruim. Mas se tudo fosse feito com um coração guiado por Deus, a lei se tornaria obsoleta. Costumamos apontar erros, mas geralmente não comemoramos os acertos. Isso acontece por que o mau, geralmente, é entendido como natural e o bom se tornou escasso. Sendo assim, de tão natural que se tornou o mau, aquilo que é bom deveria ser entendido como milagre e comemorado sempre que acontecesse. Enquanto o mau se configura como o desejo do homem de sair da presença de Deus, a configuração do que é bom é o entendimento da necessidade de se manter ligado ao criador. É preciso contemplar os milagres à nossa volta refletidos nos muitos atos de bondade que se espalham por todos os lugares e os comemorar para que se multipliquem. Está escrito em Jeremias: "Enganoso é coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?". Em Mateus: "Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias". Diante de tudo isso e sendo o coração essencial para toda boa obra é preciso seguir o exemplo do salmista: "Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto". Disse ainda mais o salmista: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece as minhas inquietações. Vê se em minha conduta algo que te ofende, e dirige-me pelo caminho eterno”. Na epístola de João está escrito: “E nisto conhecemos que somos da verdade e diante dele asseguramos o nosso coração”. O apóstolo Paulo, homem que viveu muitas experiências, disse: “trago sobre o meu corpo as marcas de Cristo”. Somos ensinados que Deus deseja todo o corpo, mas em sua sabedoria, o Eterno inicia sua moradia em nós pelo íntimo. Ele sabe que é do coração que “procedem as saídas da vida”, como disse Salomão. Se convencido, o coração bombeará esperança e alegria para todo o corpo e a pessoa passará a ter atitudes e comportamentos similares ao daquele que o convenceu e quanto mais desejar poderá se assimilar ao seu Criador. Paulo escreveu aos efésios: “Oro também para que os olhos do coração de

sejam iluminados, a fim de que vocês conheçam a esperança para a qual ele os chamou”. Em Provérbios está escrito: “Dá-me, filho meu, o teu coração, e os teus olhos observem os meus caminhos”. Coração tem a ver com qualidade de alguém que assimila os ensinamentos do seu mestre. O bom discípulo quando possui dúvida não recorre aos seus rabiscos como fonte inspiradora, mas àquele que inspirou o aprendizado. Discípulos aprendem a ver o mundo com as possibilidades do Mestre e não com as suas. Pelo conhecimento do aluno, estar no barco é a melhor opção, mas com o respaldo do Mestre é possível sair caminhando pelas águas. Um coração natural possui visão natural enquanto que um coração inspirado por Deus incendeia outros corações a amar tudo o que o Mestre ama. Ter um coração parecido com o de Jesus é olhar para os dias atuais e enxergar esperança por que se olha não com os próprios olhos que nada veem, mas com os olhos de quem tudo pode. Minhas mãos não conseguirão apresentar saída para o caos, mas o coração do Mestre em mim impulsionará meu corpo para continuar a jornada. No livro de Mateus está escrito: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, com toda tua alma e com todo teu entendimento”. Há um Salmo que diz: “guardo no coração a tua palavra para não pecar contra Ti”. O coração do discípulo se alegra com aquilo que alegra o coração de Jesus e se entristece com aquilo que entristece o coração do Mestre. Como estaria o coração de Deus diante do homem caído na estrada depois de ser assaltado? Seria como o coração do samaritano porque o samaritano possuía o coração tocado e se assimilou ao do seu Mestre. Quando o jovem da lei indagou a Jesus acerca do que teria de fazer para herdar a vida eterna foi respondido com outra pergunta: “quem daqueles que viu o homem jogado ao chão depois de ser assaltado foi o seu próximo?”. “O que o ajudou, respondeu”. Disse Jesus: “Faze isso e viverás”, ou seja, tenha um coração como o meu para poder viver a vida que tenho preparado para você. Escreveu Rubem Alves: “Aquilo que está escrito no coração não necessita de agendas, porque a gente não esquece. O que a memória ama fica eterno”. Como está o coração de Jesus diante do caos na terra? Todo discípulo de Jesus saberá responder por que possui um coração igual ao do seu Senhor. Para esses e os demais, Jesus continua a dizer: “Ao olhar o caos no mundo não passe por longe, se aproxime e faça o que somente aqueles que possuem um coração igual ao meu tem esperança para fazer. Foi para isso que pedi para morar dentro de você”.


Fonte: Gildeon Mendonça Diácono da Igreja Assembleia de Deus em Natal e Líder de Jovens há 16 anos.

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