Por que a Visão Mundial elege as crianças como sua principal Missão

segunda-feira, dezembro 26, 2011


Há cerca de 9 anos fui a Itinga, cidade mineira localizada no Vale do Jequitinhonha, conhecer o projeto que a Visão Mundial estava inaugurando. Para aproveitar a viagem, levei comigo uma cesta bem grande, presente que uma madrinha nos pediu para entregar à afilhadinha que ela acabava de apadrinhar. 

O ônibus chegou bem cedo, mas já dava para sentir o forte calor da região. Passei o dia conversando com os moradores, especialmente da periferia, como forma de conhecer melhor a cidade. Água poluída, falta de saneamento básico, desemprego e um altíssimo índice de alcoolismo.


Era muito comum ver nas ruas de terra batida de Itinga crianças visivelmente desnutridas e doentes, todas com a barriguinha inchada, bem saliente. Uma mãe chegou a me dizer que quando faltava dinheiro para o leite, ela dava um jeito de comprar “caninha” para que a criança bebesse e parasse de chorar de fome. Além de registrar altos índices de desnutrição infantil, a cidade sofre com a exploração de mão de obra infantil, baixo nível de escolaridade e também com alta incidência de violência e mortes por armas de fogo.


Tudo isso me fez entender o por quê de a Visão Mundial ter escolhido Itinga para instalar um de seus projetos. A necessidade se fazia urgente.


Neste mesmo dia à tarde, fui entregar a cesta enviada pela madrinha. Ao chegar à casa da menina, imediatamente a mãe me apresentou todos os seus seis filhos e me contou que a menorzinha havia sido enterrada poucos dias antes. “O médico não descobriu o que ela tinha. Mas eu sei que foi por causa da água suja daqui.” Em seguida, como que resignada, a mãe mudou de assunto e decidiu me apresentar a pequena Marlene, a menina que iria receber de minhas mãos o presente enviado pela madrinha. Depois do falecimento da irmã, Marlene era a nova caçulinha da casa e a única, até então, que havia sido apadrinhada: “Essa é sortuda, acabou de ganhar uma madrinha de presente”, comemorou a mãe.


Marlene era como a maioria das crianças que vi andar pelas ruas de Itinga: mirradinha, meio amarelinha, meio triste. Conversei um pouquinho com ela, mas não quis adiar muito a entrega do presente. A cesta grande parecia ainda maior em frente à pequena menina. Os olhos curiosos da criança desnutrida não entenderam muito bem quando coloquei o presente na frente dela. Marlene olhava imóvel para a cesta, olhava para mim, voltava a olhar para a cesta. Até que eu disse:  “É para você; é sua, pode abrir.” Os olhos dela foram então para a mãe, como que pedindo permissão para acreditar em tudo aquilo.


Marlene hesitou um pouco mais até que, com a minha ajuda, começamos a desembrulhar o presente. Quando sentiu que realmente podia abrir aquele embrulho, que tudo aquilo era mesmo seu, a ansiedade típica das crianças que ainda acreditam em sonhos invadiu aquele corpinho e, em poucos segundos, ela rasgou todos os enfeites que a separavam do presente.


Quando, enfim, se deparou com tudo o que a cesta trazia, Marlene ficou alguns segundos muda, atônita, sem acreditar no que seus olhos insistiam em enxergar: bombons, balas, biscoitos, sucos, geléia, pés de moleque, pipoca, chocolates redondos, quadrados, compridinhos, tudo em fartura e com as mais coloridas e variadas embalagens.


Imediatamente, Marlene, que estava agachada, se levantou carregando no colo aquela cesta cujo peso devia ser quase igual ao seu. Ela abraçava tudo aquilo com uma força desesperada, uma obstinação que conferia a ela a certeza de que nada ali era um sonho prestes a acabar.


Neste momento, ela começou a andar com a cesta nas mãos. Quando imaginei que ela ia para o quarto onde dormia, guardar a cesta, Marlene atravessou a porta da casa e colocou o imenso presente na calçada da rua. Lá fora ela se pôs a gritar, convocando toda a meninada da rua: “vem, gente, vem, gente, corre, tem doce, tem doce!!”


Meio minuto depois a cesta de Marlene estava vazia. Vi que ela estava feliz, com um pirulito na boca enquanto cada criança da vizinhança trazia um doce na mão. Marlene, então, se voltou para mim e me deu um abraço apertado. Demorado e apertado.


No instante em que durou aquele agradecimento tão estreito e sincero, tive a certeza de que nós, adultos imperfeitos, e ao contrário do que muitos dizem, nascemos generosos. E pensei que é justamente por isso que devemos zelar para que o mundo injusto e desigual no qual vivemos não extraia o que naturalmente as crianças trazem consigo: a crença que o melhor exemplo é mesmo aquilo que, espontaneamente, nos manda o coração.



Ana Paula Drumond Guerra


Fonte: visao mundial

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